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04 de Agosto de 2026 às 11:11
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Um vídeo gravado por pacientes no interior do Hospital Estadual e Pronto-Socorro João Paulo II nesta terça-feira (4), em Porto Velho (RO), registra macas amontoadas, falta de espaço e pacientes aos montes em cadeiras ao longo dos corredores de atendimento da unidade.
Embora a imagem choque a opinião pública, o colapso da saúde pública de Rondônia está registrado de forma oficial em documentos assinados pela própria administração estadual. A crise na maior unidade de urgência e emergência do estado indica-se em duas frentes administrativas asfixiantes: o esgotamento físico dos servidores de base e o remanejamento financeiro de obras estruturais.
Raio-X científico do colapso
A superlotação crônica não é um fenômeno sem explicação, porém sim o resultado de falhas estruturais severas e amplamente mapeadas pela ciência. Um estudo observacional e quantitativo intitulado "Aglomeração no Serviço de Urgência e Emergência: Fatores que Resultam neste Cenário no Pronto-Socorro Referência em Rondônia" , publicado em 2026 pela revista científica Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR, destrinchou o descaso no JPII.
Conduzida por profissionais e pesquisadores de saúde do estado, a pesquisa analisou retrospectivamente 1.983 prontuários de pacientes atendidos na unidade.
O estudo identificou que 41,8% dos pacientes internados precisaram aguardar de 1 a 10 dias por algum procedimento específico ou por uma vaga de transferência para hospitais de retaguarda. Outros 6,3% enfrentaram uma espera ainda mais severa, que variou de 11 a 29 dias. Em contraste, apenas 1,3% dos pacientes conseguiram liberação ou transferência em um tempo inferior a 24 horas.
Os pesquisadores constataram que 41,77% dos pacientes que deram entrada no pronto-socorro foram classificados com a cor verde (pouco urgente) e 23,3% com a cor amarela. Além disso, 35,9% dos atendimentos ocorreram por demanda espontânea. Segundo o estudo, esse fluxo excessivo de casos não urgentes decorre diretamente da "dificuldade no acesso e resolutividade dos demais pontos da Rede de Atenção à Saúde (RAS)" .
Sem conseguir respostas nas unidades básicas municipais, a população busca o pronto-socorro de alta complexidade como porta de entrada preferencial, gerando um entupimento em massa da triagem.
O artigo aponta que o hospital é vítima de um "déficit na comunicação e ausência de fluxo bem estabelecido entre a central de regulação e os hospitais de retaguarda " . Esse travamento na transferência de pacientes para leitos clínicos prolonga internamentos desnecessários, gerando custos operacionais excessivos e elevando drasticamente o risco de infecções hospitalares.
A pesquisa indicou que em 63,4% dos prontuários médicos analisados não constava a descrição de nenhum desfecho de internação. A administração hospitalar rotineiramente deixa de registrar quando e para onde o paciente havia sido transferido, criando uma lacuna de dados que oculta a real ocupação da unidade e inviabiliza uma gestão eficiente.

GRÁFICO: Conteúdo gerado com auxílio de IA e revisado por humanos - Reprodução do estudo da Unipar
Condições sub-humanas e a chancela do CFM
A constatação científica de desgaste operacional do João Paulo II corrobora uma vergonha de caráter nacional. Desde o ano de 2011, o Conselho Federal de Medicina (CFM) classifica formalmente a unidade de Porto Velho como o pior pronto-socorro público de todo o Brasil.
Em vistorias técnicas subsequentes, as lideranças médicas nacionais têm reiterado o teor devastador das avaliações.
O presidente do CFM, em entrevista para a TV Record , o médico rondoniense Dr. Hiran Gallo, manifestou publicamente sua indignação perante o cenário: "Eu me sinto envergonhado como presidente do Conselho Federal de Medicina, no meu estado, eu sou rondoniense, nascido lá, quando eu vejo uma condição sub-humana. Nem animal pode ser tratado dessa forma" .
Segundo Gallo, a estrutura física do HEPSJP IIé um pronto-socorro que não poderia ser chamado de pronto-socorro. "Não tem ventilação, não tem luminosidade, não tem nenhuma condição de funcionamento" .
A gravidade do ambiente é ilustrada por relatos dramáticos de acompanhantes e familiares recolhidos ao longo dos anos, que denunciam pacientes graves imobilizados em macas nos corredores por até 40 dias aguardando cirurgias ortopédicas de urgência.
Esgotamento de servidores
Para manter esse cenário funcionando de forma mínima, a administração estadual tem recorrido a medidas extremas que sacrificam a saúde física e mental dos próprios trabalhadores da linha de frente.
O volume de superlotação flagrado pelos usuários coincide com uma força-tarefa impositiva adotada pela diretora-geral do hospital, Rafaela Garcia Dancini, e pela diretora-adjunta Isabella Naiara de Almeida Moura.
Ao longo de todo o mês de julho e início de agosto de 2026, a chefia do Núcleo de Gestão de Pessoas do JPII (JPII-NGDP), coordenada por Magna Aparecida Barbosa, emitiu dezenas de portarias determinando a interrupção imediata de férias regulares de técnicos de enfermagem, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais.

CAPTURA DE TELA: A suspensão de férias é uma manobra constante do Governo do Estado, que carece de profissionais concursados - Reprodução do Diário Oficial
Invocando motivos de "superior interesse público", a administração obrigou servidores que estavam em gozo de descanso constitucional a retornarem imediatamente aos plantões para cobrir os buracos das escalas de atendimento em alas críticas.
Essa política de suspensão de férias atesta o déficit crônico de recursos humanos e a sobrecarga extrema a que as equipes de enfermagem e apoio técnico estão submetidas cotidianamente para que o hospital não paralise por completo.
Recursos do Heuro drenados para custeio da Sesau
O sufocamento histórico do João Paulo II poderia ter sido solucionado caso as promessas de infraestrutura tivessem sido cumpridas pelo Governo do Estado de Rondônia. O projeto do Heuro (Hospital de Emergência e Urgência de Rondônia) , planejado para ser construído em uma área de 56 mil metros quadrados para abrigar 399 leitos, 9 salas de cirurgia e 16 UTIs, arrasta-se como um fantasma gerencial.
O primeiro grande golpe no projeto ocorreu ainda em 2019, quando uma verba federal de R$ 100 milhões de reais liberada pela Caixa Econômica Federal exclusivamente para dar início às obras de emergência precisou ser devolvida de forma integral aos cofres da União porque a gestão do então secretário de saúde do estado, Fernando Máximo, simplesmente não utilizou os recursos.
Atualmente, o projeto do novo pronto-socorro sofreu um duro golpe orçamentário e legal. O governo comandado por Marcos Rocha optou por redirecionar os recursos financeiros originalmente carimbados para a construção do Heuro a fim de utilizá-los no pagamento de despesas ordinárias de custeio, folha e manutenção da própria Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).
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Para agravar o cenário, as obras físicas do canteiro de obras do Heuro encontram-se paralisadas há mais de dois anos devido à suspensão das licenças ambientais e de construção pela Prefeitura de Porto Velho, sob a alegação de que o governo estadual e a empresa vencedora falharam em apresentar documentos técnicos básicos de engenharia, incluindo o próprio projeto arquitetônico estrutural e o cumprimento do código de obras do município.
A construtora tenta manter operários no local de forma precária unicamente escorada por liminares judiciais.
Como o JPII não dispõe de leitos clínicos suficientes e os hospitais de retaguarda operam acima do limite por falta de resolutividade regulada, a Central de Regulação de Leitos (CEREL) do Estado tem recusado sistematicamente a transferência de pacientes graves que dão entrada nas UPAs (Zona Leste, Zona Sul e Jaci-Paraná) e Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de Porto Velho.
A asfixia da alta complexidade estadual represa os pacientes de urgência na rede primária do município, forçando médicos de postos de saúde a recusarem internações ou a manterem pacientes em estado gravíssimo sem suporte de terapia intensiva adequada.
Fonte: Rondoniaovivo
Publicado por:
Voz do Povo PVH
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